30 de outubro de 2025


Na dor
não há canto,
nem poesia.

há apenas
tristeza
e pranto.

não há versos,
nem palavras —
apenas ecos
de corações quebrantados.

lembranças
negativas: não, não, não —
isso, não —
na esperança do contradizer,
lágrimas.

lá fora,
o noticiário repete
nomes que se apagam.

mães reconhecem filhos
pelo tênis,
uma marca
pela roupa rasgada.

E pessoas
segue em silêncio —
talvez, porque na dor,
a esperança
também esmorece.


9 de outubro de 2025


Singeleza

da fresta da janela,
  vê-se árvore,
   rua,
    ou gente?

da fresta,
  olha-se o céu —
   ou o tempo?

observa o que pulsa fora,
  por ora,
   por tempo.

a vida no entorno —
  paisagem,
   cotidiano,
    passageira.

ou nem se vê?


15 de setembro de 2025


Viver é chama
ora de esperança,
ora da perseverança.

É vigiar o fogo (interno)
protegê-lo das intempéries
sem sufocá-lo
permitindo que aqueça,
sem devorar.

Chama que busca ser luz
sem ofuscar
sem se invisibilizar
sem se consumir demais

viver é vela
é chama -
de fé, de coragem,
de resiliência

que o tempo,
com o tempo
aos poucos consome.


8 de setembro de 2025


Incompletude

poética da ausência,
palavra suspensa
no entremeio do que foi dito
e do que se cala.

paixão não completada,
gesto interrompido,
beijo não saciado -
que insiste em arder.

o que falta
é também o que habita:
vazio feito de presença latente,
infinito daquilo que não se cumpre.

na incompletude,
o ser se reinventa,
como se a ausência fosse
a mais ardente forma de existir.

saudade —
corte invisível
que sangra memória
e demora cicatrizar.



28 de agosto de 2025


É assim, sem aviso, a saudade bate
nos instantes imprecisos,
na fila do supermercado,
num olhar distraído para a lua,
no som daquela música antiga
que tocava
enquanto a gente se falava.

Ah, como a saudade se insinua
nos gestos cotidianos,
numa reunião sem importância,
quando alguém pronuncia um nome igual ao seu,
                                                 a mesma linha de trabalho,
na lembrança de uma cidade.

Ah, como a saudade persiste,
no agora, no ontem,
no quase, no cedo,
sem hora marcada,
sem licença pedida.

Olho a sua fotografia,
e até ela sussurra baixinho:
ai, que saudade...