terapia
Ela disse:
não guarde nada.
É como cebola —
precisa descascar,
camada por camada.
Ou como obra,
como faxina:
é preciso bagunçar
para melhorar.
Demorou,
mas fomos tirando coisas do lugar.
Algumas mais fáceis.
Outras —
demoradas,
difíceis.
Ele era nosso amigo
(eu achava).
Estava morando um tempo
na casa ao lado
(enteado? acho — algo assim).
R.
era nosso amigo
(eu achava).
Pediu que eu abrisse a porta
para assistir televisão comigo.
Hesitei.
Insistiu.
Disse coisas, apelou,
mexeu com o coração mole
que havia em mim.
(eu achava).
Pediu que eu abrisse a porta
para assistir televisão comigo.
Hesitei.
Insistiu.
Disse coisas, apelou,
mexeu com o coração mole
que havia em mim.
Permiti.
[…]
Congelei.
Pareceu-me a melhor coisa a fazer:
fingir que não vi,
que não entendi,
e esperar passar.
“Se você contar para a sua mãe
que eu vim aqui,
ela vai brigar.”
Depois disso,
ele sumiu.
Disseram que voltou
para onde morava.
Ele era nosso amigo
(eu achava).
Às vezes,
quando algo acontece,
como aquela criança,
eu congelo.
Não sei o que fazer.
É uma sensação ruim.
Depois,
teve J.
Não queria.
Disse não.
Senti nojo
e vontade de fugir.
Ainda hoje,
há coisas
que não atravesso.
É uma sensação ruim.
Quando eu tinha dez,
teve o V. —
filho da inquilina.
Víamos o jornal juntos
e respondíamos, em coro,
o “boa noite” do apresentador.
Ele era nosso amigo
(eu achava).
Ele passou a mão
na minha perna,
avançando
por dentro do meu calção.
Minha mãe viu
e gritou com ele —
que desconversou.
Depois, gritou comigo:
“pamonha, palerma,
não está vendo
o que ele estava fazendo?”
Não.
Não vi, não via.
Não entendia.
Às vezes,
acho que ainda não vejo.
É uma sensação ruim.
Éramos amigos
(eu achava).
Eles se mudaram.
Ela me xingou —
doeu mais.
Descascar cebolas
arde nos olhos
e faz chorar.
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