3 de abril de 2026


terapia

Ela disse:
não guarde nada.

É como cebola —
precisa descascar,
camada por camada.

Ou como obra,
como faxina:
é preciso bagunçar
para melhorar.

Demorou,
mas fomos tirando coisas do lugar.
Algumas mais fáceis.
Outras —
demoradas,
difíceis.

Ele era nosso amigo
(eu achava).

morava um tempo
na casa ao lado
(enteado? acho).

R. 
era nosso amigo
(eu achava).

Pediu que eu abrisse a porta
para ver televisão.

Hesitei.

Insistiu.
apelou,
mexeu com o coração mole
que havia em mim.

Permiti.

[…]

Congelei.
fingi que não vi,
que não entendi,
esperar passar.

“Se você contar para a sua mãe
que eu vim aqui,
ela vai brigar.”

Depois,
sumiu.

Ele era nosso amigo
(eu achava).

Às vezes,
quando algo acontece,
como aquela criança,
eu congelo.

Não sei o que fazer.

Depois,
teve J.

Não queria.
Disse não.

nojo
vontade de fugir.

Ainda hoje,
há coisas
que não atravesso.

Quando eu tinha dez,
teve o V. 

filho da inquilina.

Víamos o jornal juntos
e respondíamos, em coro,
o “boa noite”.

Ele era nosso amigo
(eu achava).

a mão na minha perna,
subindo
por dentro do calção.

Minha mãe viu
gritou com ele —
que desconversou.

Depois, comigo:
“pamonha, palerma,
não está vendo
o que ele estava fazendo?”

Não.
Não vi, não via.
Não entendia.

Às vezes,
acho que ainda não vejo.

Éramos amigos
(eu achava).

Eles se mudaram.

Ela me xingou —
doeu mais.

Descascar cebolas
arde nos olhos.

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