9 de abril de 2026


feira

em dia de feira,
a escola se enche de cores.

sabores e histórias
a percorrer,
barraca por barraca.

arte feita com as mãos:
para usar,
degustar,
levar.

gente, encontros,
sorrisos que se cruzam.

todo mês,
o mesmo caminho
reencontro
e outro sabor.

6 de abril de 2026


É tempo de deixar para trás
toda dor
e sombra.

Percebi:
não sou tímida.

A vida me fez assim
com vontade de não ser vista.

Escondida,
parecia mais seguro.

De preto,
transitando na penumbra,
anônima,
invisível -
proteção

Mas eu era
criança falante,
necessitada de atenção
e afeto.

Falava aos cotovelos,
a quem passasse.

De memória impressionante,
guardava logos, jingles,
nomes,
histórias
encantava os passantes.

Vocabulário vasto,
proximidade mansa,
voz fina, dócil.

De tanto mandarem
que eu me calasse,
fui me encolhendo.

Vieram outras tantas coisas.
Fui ressequindo,
apagando,
fui querendo
deixar de existir.

Transitando na penumbra,
tentando
não sucumbir.

Percebo, em tempo:
não posso
seguir assim.

É tempo de deixar para trás
toda dor
e sombra.

Na penumbra,
na invisibilidade,
não posso
ser quem sou.

e algo em mim
pede ar.



desprendimento


enquanto escrevo,
rememoro,
reconheço,
(re)nomeio

dou forma ao indizível,
coloco palavras
no lugar do que ficou guardado.

compreendo
o sentir
o sentido
na pele, na linguagem, na vida, na direção

e, ao tirar de mim,
ressignifico 
(tento).

externo.

início a espera
de apagar em mim,
os pesos dos sentidos,

até que sejam apenas
palavras

e depois,
nem isso.

3 de abril de 2026


terapia

Ela disse:
não guarde nada.

É como cebola —
precisa descascar,
camada por camada.

Ou como obra,
como faxina:
é preciso bagunçar
para melhorar.

Demorou,
mas fomos tirando coisas do lugar.
Algumas mais fáceis.
Outras —
demoradas,
difíceis.

Ele era nosso amigo
(eu achava).

morava um tempo
na casa ao lado
(enteado? acho).

R. 
era nosso amigo
(eu achava).

Pediu que eu abrisse a porta
para ver televisão.

Hesitei.

Insistiu.
apelou,
mexeu com o coração mole
que havia em mim.

Permiti.

[…]

Congelei.
fingi que não vi,
que não entendi,
esperar passar.

“Se você contar para a sua mãe
que eu vim aqui,
ela vai brigar.”

Depois,
sumiu.

Ele era nosso amigo
(eu achava).

Às vezes,
quando algo acontece,
como aquela criança,
eu congelo.

Não sei o que fazer.

Depois,
teve J.

Não queria.
Disse não.

nojo
vontade de fugir.

Ainda hoje,
há coisas
que não atravesso.

Quando eu tinha dez,
teve o V. 

filho da inquilina.

Víamos o jornal juntos
e respondíamos, em coro,
o “boa noite”.

Ele era nosso amigo
(eu achava).

a mão na minha perna,
subindo
por dentro do calção.

Minha mãe viu
gritou com ele —
que desconversou.

Depois, comigo:
“pamonha, palerma,
não está vendo
o que ele estava fazendo?”

Não.
Não vi, não via.
Não entendia.

Às vezes,
acho que ainda não vejo.

Éramos amigos
(eu achava).

Eles se mudaram.

Ela me xingou —
doeu mais.

Descascar cebolas
arde nos olhos.

 
Tem coisa que dói no corpo —
uma topada,
uma trombada,
um escorregão.

Tem coisa que dói na alma —
há as que machucam,
deixam marcas fundas,
tão fundas
que, mesmo com o tempo,
ainda se vê o reflexo:
abandonos, rejeições,
violências, abusos.

Marcas fundas
lesionam a alegria
(e instauram a culpa),
a confiança —
em si, nos outros.

Mesmo tampando,
mesmo ocultando,
ela está lá —
meio sombra,
à espreita,
tentando minar a esperança.

A casca fina,
vive se rompendo
e faz sangrar
em uma ou várias frestas.

Difícil lidar —
mas, depois que a gente entende,
fica mais possível
cuidar.