3 de abril de 2026


Quando criança,
caí da gangorra.

Me balançava
alegremente,
como se voasse —
livre, leve.

Era espaço aberto,
nuvem e céu,
árvore ao redor,
tanta coisa para ver.

Olhava tudo com avidez,
como se sorvesse
cada cor,
todas as cores,
antes de voltar
ao mundo entre paredes

Então, algo cedeu.

De costas, ao chão,
bati a cabeça nos cacos —
acho que, mesmo dia,
vi estrelas.

Um prego na nuca
fez manchar
meu casaco de flanela,
o preferido,
com balões verdes e azuis.

Vi o vermelho
tingir, gradativamente, o tecido.

gritaram comigo,
mas eu só lamentava
se perderia
os balões verdes e azuis.

Na minha imaginação,
eles voavam,
iam longe —
e eu ia com eles. 



Escondi todas as dores.
tentei fingir
que não existiam.

Guardei-as bem fundo —
longe da vista,
dos sentidos,
da pele.

Escondi de mim,
mas em mim mesma.

Não queria dizê-las,
mas também não havia
a quem dizê-las.

Agora, preciso lembrar:
achar onde as escondi,
uma a uma,
cada uma delas —

desabrigar,
desacumular,
curar,

ainda que doa,
ainda que demore,

como quem abre janelas
numa casa esquecida,

para, enfim,
habitar — apenas eu —
em mim mesma.


Olhando a fotografia,
lembrei-me
daquela criança —

acanhada,
escondida atrás da porta,
com medo do escuro,
com a chuva lá fora
e a luz ausente

ali, no pequeno espaço,
se acolhia —
encolhida,
abraçando a si mesma,
lágrimas inundando-lhe o rosto,
num soluço contido,
quase silêncio,

à espera
de que a solidão passasse

passam as horas —
densas —

e o escuro, persistente, adentrava,
ruidoso, insistente,
fazendo do ser morada
como se tivesse garras
ou raízes

criando lastro
por dentro,
no tempo.

18 de março de 2026


Coisas guardadas.
Palavras suspensas.
Sentimentos adiados —
quase vividos, quase inteiros.

Estocamos. Esperamos.
E seguimos.

O tempo, com o tempo,
escorre.
Passa.

E, no silêncio dos dias,
embola memórias,
apaga contornos,
dissolve o possível.

O que não se diz
cria mofo, se perde.
O que não se vive
asfixia o instante —
aperta, comprime.

Vamos nos contendo,
nos desfazendo.
Vamos nos perdendo
daquilo que não ousamos ser.

Somos uma vez na vida
repetidamente,
a cada instante.

Até que o tempo,
sem aviso,
nos atravessa
por inteiro.

E então,
uma vez na vida,
já não existe mais.


12 de março de 2026


Trivialidade

trivial é o que se repete,
corriqueiro, passa na banalidade,
quase sem deixar marca.
Algo comum,
corriqueiro,
sem grande importância.

Mas será mesmo
que o comum
é vazio de sentido?

Não creio.

Corriqueiramente
bebo café —
o gesto simples da manhã,
repetido, muitas vezes, ao longo do dia.

E, ainda assim,
mesmo na repetição intensa,
o café não perde
seu encanto
entre as mãos.

Assim também
o pensamento em você.
Insiste, retorna,
até nas improváveis horas
não se esgota no pensar,
não cansa,
não desgosta.

É sede que permanece,
é vontade que não se sacia.

Trivial, talvez,
seja olhar sua fotografia.

Mas nunca é banal
encontrar seus olhos
— guardados
atrás das lentes.