22 de janeiro de 2026


Poemas
por vezes nasce nos cantos,
das sombras que aprendem a ser luz,
onde a brecha respira,
no gesto percebido
do entremeio —
ou de qualquer meio
que ainda não é palavra.

Memórias não ditas,
memórias queridas —
sempre o querer a querer
[em vigília].
Memórias vividas:
o eternar do instante
[quiçá imaginado].

O pensar se verseja,
ganha forma,
ganha asas,
se cria.

De um canto íntimo do ser,
o verso se faz caminho:
vai — voa,
mora [por um tempo]
em outro corpo sensível,
aquele que lê
e, lendo, sente.


30 de outubro de 2025


Na dor
não há canto,
nem poesia.

há apenas
tristeza
e pranto.

não há versos,
nem palavras —
apenas ecos
de corações quebrantados.

lembranças
negativas: não, não, não —
isso, não —
na esperança do contradizer,
lágrimas.

lá fora,
o noticiário repete
nomes que se apagam.

mães reconhecem filhos
pelo tênis,
uma marca
pela roupa rasgada.

E pessoas
segue em silêncio —
talvez, porque na dor,
a esperança
também esmorece.


9 de outubro de 2025


Singeleza

da fresta da janela,
  vê-se árvore,
   rua,
    ou gente?

da fresta,
  olha-se o céu —
   ou o tempo?

observa o que pulsa fora,
  por ora,
   por tempo.

a vida no entorno —
  paisagem,
   cotidiano,
    passageira.

ou nem se vê?


15 de setembro de 2025


Viver é chama
ora de esperança,
ora da perseverança.

É vigiar o fogo (interno)
protegê-lo das intempéries
sem sufocá-lo
permitindo que aqueça,
sem devorar.

Chama que busca ser luz
sem ofuscar
sem se invisibilizar
sem se consumir demais

viver é vela
é chama -
de fé, de coragem,
de resiliência

que o tempo,
com o tempo
aos poucos consome.


8 de setembro de 2025


Incompletude

poética da ausência,
palavra suspensa
no entremeio do que foi dito
e do que se cala.

paixão não completada,
gesto interrompido,
beijo não saciado -
que insiste em arder.

o que falta
é também o que habita:
vazio feito de presença latente,
infinito daquilo que não se cumpre.

na incompletude,
o ser se reinventa,
como se a ausência fosse
a mais ardente forma de existir.

saudade —
corte invisível
que sangra memória
e demora cicatrizar.