12 de março de 2026


Trivialidade

trivial é o que se repete,
corriqueiro, passa na banalidade,
quase sem deixar marca.
Algo comum,
corriqueiro,
sem grande importância.

Mas será mesmo
que o comum
é vazio de sentido?

Não creio.

Corriqueiramente
bebo café —
o gesto simples da manhã,
repetido, muitas vezes, ao longo do dia.

E, ainda assim,
mesmo na repetição intensa,
o café não perde
seu encanto
entre as mãos.

Assim também
o pensamento em você.
Insiste, retorna,
até nas improváveis horas
não se esgota no pensar,
não cansa,
não desgosta.

É sede que permanece,
é vontade que não se sacia.

Trivial, talvez,
seja olhar sua fotografia.

Mas nunca é banal
encontrar seus olhos
— guardados
atrás das lentes.

22 de janeiro de 2026


Poemas
por vezes nasce nos cantos,
das sombras que aprendem a ser luz,
onde a brecha respira,
no gesto percebido
do entremeio —
ou de qualquer meio
que ainda não é palavra.

Memórias não ditas,
memórias queridas —
sempre o querer a querer
[em vigília].
Memórias vividas:
o eternar do instante
[quiçá imaginado].

O pensar se verseja,
ganha forma,
ganha asas,
se cria.

De um canto íntimo do ser,
o verso se faz caminho:
vai — voa,
mora [por um tempo]
em outro corpo sensível,
aquele que lê
e, lendo, sente.


30 de outubro de 2025


Na dor
não há canto,
nem poesia.

há apenas
tristeza
e pranto.

não há versos,
nem palavras —
apenas ecos
de corações quebrantados.

lembranças
negativas: não, não, não —
isso, não —
na esperança do contradizer,
lágrimas.

lá fora,
o noticiário repete
nomes que se apagam.

mães reconhecem filhos
pelo tênis,
uma marca
pela roupa rasgada.

E pessoas
segue em silêncio —
talvez, porque na dor,
a esperança
também esmorece.




*sobre a chacina no Rio e guerras

9 de outubro de 2025


Singeleza

da fresta da janela,
  vê-se árvore,
   rua,
    ou gente?

da fresta,
  olha-se o céu —
   ou o tempo?

observa o que pulsa fora,
  por ora,
   por tempo.

a vida no entorno —
  paisagem,
   cotidiano,
    passageira.

ou nem se vê?


15 de setembro de 2025


Viver é chama
ora de esperança,
ora da perseverança.

É vigiar o fogo (interno)
protegê-lo das intempéries
sem sufocá-lo
permitindo que aqueça,
sem devorar.

Chama que busca ser luz
sem ofuscar
sem se invisibilizar
sem se consumir demais

viver é vela
é chama -
de fé, de coragem,
de resiliência

que o tempo,
com o tempo
aos poucos consome.