31 de julho de 2026


Desde pequena,
a solidão e a solitude me rodeiam.

Na ausência de adultos,
portas trancadas por fora,
aprendi a ser minha própria companhia.

Ambígua sensação.

Liberdade para ver o que quisesse,
mas ninguém para comentar,
                          para apreciar.

Silêncio de gente.
Barulho de mundo.

Comia o que desse,
em qualquer canto, 
   a qualquer hora.

Compartilhava minha porção
com o gato que passava pela janela
ou com o cachorro que por ela me olhava.

Passava o dia guardando palavra.
No encontro, queria libertar todas elas.
Mas não dava.
Pessoas cansadas não são dadas à escuta.

As ausências foram fazendo morada...

Entre a solidão e a solitude,
permaneço.

A infância passa,
mas, por vezes,
parece que não sai da gente.


30 de abril de 2026


ontem,
olhei sua fotografia —
aquela 3x4
que você me deu

demoradamente,
fitei seus olhos:
forma e cor

comparei com a de agora
(ambas sem os óculos)
apesar do tempo,
o mesmo olhar

um sorriso
no canto dos olhos
o mesmo
que ficou em mim.

9 de abril de 2026


feira

em dia de feira,
a escola se enche de cores.

sabores e histórias
a percorrer,
barraca por barraca.

arte feita com as mãos:
para usar,
degustar,
levar.

gente, encontros,
sorrisos que se cruzam.

todo mês,
o mesmo caminho
reencontro
e outro sabor.

6 de abril de 2026


É tempo de deixar para trás
toda dor
e sombra.

Percebi:
não sou tímida.

A vida me fez assim
com vontade de não ser vista.

Escondida,
parecia mais seguro.

De preto,
transitando na penumbra,
anônima,
invisível -
proteção

Mas eu era
criança falante,
necessitada de atenção
e afeto.

Falava aos cotovelos,
a quem passasse.

De memória impressionante,
guardava logos, jingles,
nomes,
histórias
encantava os passantes.

Vocabulário vasto,
proximidade mansa,
voz fina, dócil.

De tanto mandarem
que eu me calasse,
fui me encolhendo.

Vieram outras tantas coisas.
Fui ressequindo,
apagando,
fui querendo
deixar de existir.

Transitando na penumbra,
tentando
não sucumbir.

Percebo, em tempo:
não posso
seguir assim.

É tempo de deixar para trás
toda dor
e sombra.

Na penumbra,
na invisibilidade,
não posso
ser quem sou.

e algo em mim
pede ar.



desprendimento


enquanto escrevo,
rememoro,
reconheço,
(re)nomeio

dou forma ao indizível,
coloco palavras
no lugar do que ficou guardado.

compreendo
o sentir
o sentido
na pele, na linguagem, na vida, na direção

e, ao tirar de mim,
ressignifico 
(tento).

externo.

início a espera
de apagar em mim,
os pesos dos sentidos,

até que sejam apenas
palavras

e depois,
nem isso.