3 de abril de 2026


Meu pai é meu pai,
mas não posso dizer.

Não podia ligar —
se precisasse, só urgência.
Tinha que inventar uma história,
ter um plano.

Afinal,
meu pai é meu pai,
mas não posso dizer.
Isso doía.

Se alguém nos via,
eu fingia —
uma criança qualquer.
Apesar da semelhança,
não podia dizer.

Eu não podia falar
a palavra com p.
Ele negava
a palavra com f.
E isso doía.

Doía, doeu, dói.

Irritava
não poder viver
o que se queria:
colo, cafuné,
tempo de brincadeira.

Hoje, a gente se liga —
corrido, pouco, escondido.
O tempo passou,
mas ele diz
que ainda não pode dizer.

Mas, pai,
quando vai ser?

(às vezes pergunto)

Ele diz:
— espera eu morrer,
pode ser?

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